Depois de uma semana inteira com a chuva oferecendo um comportamento parecido, apresentando-se quase sempre ao final da tarde e cessando ao longo da noite, na última quinta-feira, 26 de fevereiro, parecia que tudo ia se repetir novamente em Angra dos Reis. Mas não foi bem assim.
O fato de um dia antes o governo municipal organizar uma reunião para debater as questões relacionadas à previsão do tempo, que não era das melhores, já dava o clima de que, talvez, tivéssemos um grande acumulado de chuva se aproximando de nossas cabeças. E isso significava risco para muitos moradores. De vida, inclusive.
Com as gotas mostrando força já a partir das 18h, rumei para casa depois do segundo compromisso profissional do dia e esperei minha esposa chegar. Por volta das 19h30 ela me enviou uma mensagem de texto dizendo que havia acabado de fazer algumas compras num supermercado próximo.
Combinamos que, por conta dos volumes que ela carregava, eu abriria o portão na hora de sua chegada, tentando desempenhar perfeitamente a manobra de adentrar a casa com sacolas na mão e não se molhar completamente.
Ambos ficaram encharcados com apenas um minuto de chave na fechadura e desarme de sombrinha. Rimos juntos, e aquela talvez tenha sido a última risada conjunta da noite e da madrugada.
O que se sucedeu após aqueles minutos de descontração foram rápidas conversas banais acompanhadas de uma trilha sonora minimalista e sombria: um mix de sons orgânicos – o barulho contínuo da chuva caindo – e eletrônicos – o apito assustador do celular, denunciando que mensagens urgentes sobre o mau tempo começavam a chegar.
O sistema de alerta e alarme da Defesa Civil e o Cell Broadcast, dois programas distintos, mas com objetivos iguais, funcionaram plenamente. E isso é ótimo, porque fornece atualização sobre as condições climáticas e mantém seus usuários por dentro do que mais importa num momento tenso como esse. Por outro lado, ambos são mecanismos assustadores.
A tecnologia nos mostra o quão vulneráveis somos perante à natureza.
As mensagens foram escalando pelo município. Grades acumulados, risco iminente, hora de sair de casa. As redes sociais, que podem ser aliadas ou inimigas nessas horas, mostravam deslizamentos, inundações e a fúria da chuva. Uma tormenta democrática, que abarcava morros e bairros considerados mais nobres, localidades distantes e pontos centrais.
O que restava a cada um de nós naquele momento, a cada um que ainda não havia recebido a mensagem derradeira para deixar sua residência e seguir para um ponto de abrigo? Apenas abrir a janela.
Da janela do meu quarto, que oferece uma visão privilegiada de quem sobe e desce pela rua, vi uma movimentação atípica para altas horas de uma quinta-feira. Famílias inteiras com quatro, cinco, seis membros, descendo pela rua. Com sacolas na mão, bichos de estimação enrolados em toalhas, guarda-chuvas e sombrinhas multicoloridos balançando sincronizados no estalar das gotas.
Angrenses absortos em pensamentos e temores. Calculando rotas e possibilidades; projetando cenários e situações, das melhores às piores. Um homem desce cambaleando, segurando uma latinha de cerveja numa mão e um guarda-chuvas que – claro – já havia experimentado dias melhores. Principalmente, em comparação com aquele dia especifico.
Seguiram-se ligações e mensagens de amigos e parentes. “Tudo bem por aí com vocês?”, “Vamos cancelar amanhã, ok?”, “Será que estamos em perigo aqui?”. Questionamentos ligeiramente diferentes, embora a interrogação ligue cada um deles a uma ideia maior… A de que estamos apenas parcialmente seguros, majoritariamente amedrontados e, em algum sentido, um pouco perdidos.
23h30. Eu e minha esposa estamos arrumados, com capas de chuva prontas para serem usadas e as caixas de transportes dos dois gatos de estimação abertas. Outros vizinhos estão nas janelas. Semblantes compenetrados e um silêncio sepulcral, cortado apenas pelo barulho de algo que deveria ser banal, ordinário, mas que hoje, oferece outros significados.
Da janela lateral que se abriu para a minha e a sua Angra dos Reis na noite de quinta-feira, quase madrugada de sexta, o que se via lá fora não era chuva. Era medo.

