Quase como uma foto desfocada, daquelas que a gente deixa de lado diante de outras melhores, estreou no catálogo do streaming Netflix, em dezembro do ano passado, “O Freelancer: O Homem Por Trás da Foto” (2025).
Dirigido pelo vietnamita-americano Bao Nguyen, o documentário dedica 100 minutos a um questionamento referente a autoria de uma foto emblemática, que ficou conhecida mundialmente como “The Terror of War”, mas no Brasil, costuma ser lembrada como a fotografia da “Garota do Napalm”.
O clique fotográfico veio ao mundo no dia 8 de junho de 1972, durante um bombardeio ao vilarejo de Trảng Bàng, no Vietnã do Sul. Naquele momento, a Guerra do Vietnã, iniciada em meados dos anos 50, mostrava que os Estados Unidos, apesar de sua força inconteste, não era invencível e poderia ser atingido de várias maneiras… Até mesmo por uma foto.
E foi o que aconteceu. O registro fotográfico que chocou o mundo por meio da imagem de uma menina correndo nua, desnorteada após ter o corpo parcialmente queimado pelas temidas bombas de napalm, afetou fortemente a opinião pública a respeito do conflito. A guerra foi encerrada em 1975, com uma derrota acachapante dos Estados Unidos.
Uma imagem vale mais que palavras de honra?
Embora a guerra esteja presente em quase 100% do documentário, não é este o foco principal do filme. É na foto do bombardeio, na expressão de pavor da menina vietnamita Kim Phuc, na época com 9 anos, que a história se desenrola.
Atribuída ao fotógrafo Nick Ut, vietnamita naturalizado americano, a fotografia rendeu ao profissional o Pulitzer, premiação americana oferecida a trabalhos de excelência nas áreas de jornalismo, literatura e composição musical. Com ele, veio a fama e o reconhecimento planetário. Nick estava bem na foto do mundo jornalístico. Mas então, veio a bomba.
Não mortífera, mas igualmente incendiária, a confissão recente de um ex-editor da agência Associated Press (AP) jogou fogo em cima de uma fogueira de vaidades que passou a crepitar ainda mais forte. Segundo ele, cujo nome é Carl Robinson, americano-australiano que testemunhou os horrores daquela guerra, a foto foi feita por outra pessoa, e os créditos foram dados a Nick Ut por ordem do fotógrafo-chefe da AP naquele país, Horst Faas.
Mas então, quem seria o responsável pela imagem icônica? Por qual motivo Carl Robinson só revelou o fato anos depois de a foto ganhar o mundo? O que estaria por trás da negativa dos créditos devidos ao verdadeiro autor da fotografia?
Alguns questionamentos precisam ser revelados tal qual uma fotografia analógica, num processo um pouco mais demorado do que aquele que gera, por exemplo, um story instantâneo via aparelho celular.
Portanto, para não queimar o filme da surpresa do leitor, fica a dica de “O Freelancer: O Homem Por Trás da Foto”, já disponível na Netflix. São 100 minutos. Pouco mais de uma hora de uma baita história que você merece conhecer. E refletir sobre.

